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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Enquanto plantamos cana no Brazil

http://www.hempoilcan.com/
http://www.hemptrade.ca/



Vejam a indústria por trás do cânhamo em paises como o Canadá. É, não dá mais pra esconder do que se trata a probição da maconha no brasil. Divisas e comoditties, como tudo.

E enquanto a nossa plantação que mais agrega valor à terra e gera divisas é o biocombustivel cana, se plantassemos cannabis é que entrariamos em cana.

Quanta insensatez meu povo brasileiro. wake up.
Se tens olhos pra ver, enxerga.
se tens ouvido pra ouvir, ouça.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Após crise com governo, Pedro Abramovay deixa Secretaria de Políticas Sobre Drogas

21/01/2011 - 15h31
Pedro Abramovay, que irritou o governo ao defender o fim da prisão para pequenos traficantes, deixou a Senad (Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas). É a primeira baixa importante do governo Dilma.


ANA FLOR

DE BRASÍLIA

Visto como um jovem "prodígio" dentro do governo Lula, Abramovay ocupou a Secretaria Nacional de Justiça. Assumiu a Senad no início do ano, quando ela passou para o Ministério da Justiça.


Luciana Whitaker-05.jun.2009/Folhapress
Em entrevista há cerca de 10 dias ao jornal "O Globo", Abramovay se mostrou favorável que o governo enviasse ao Congresso um projeto para tornar padrão um entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal) que respalda o uso de penas alternativas para a lei de drogas.
Os juízes poderiam, dessa forma, aplicar penas alternativas a quem se encontra na situação intermediária entre usuário e traficante, desde que fosse réu primário.
A afirmação irritou o Planalto. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, descartou que o governo estivesse analisando a proposta e disse que se tratava de uma declaração de cunho "pessoal" de Abramovay.
Cardozo chegou a dizer que a proposta do governo era oposta, com endurecimento da pena para quem participasse de organizações criminosas.
Abramovay será substituído pela secretária adjunta da Senad, Paulina do Carmo Arruda Vieira Duarte.


fonte: Lista de Membros do Universidade Sem Muros
BLOG: http://universidadesemmuros.blogspot.com
MAIL: universidadesemmuros@gmail.com 
 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cannabis e sociedade

Extra, Extra! Estudantes de psicologia são presos plantando maconha em vasos. Os meliantes possuiam ainda sementes que seriam usadas para outros plantios.

Hipocrisias a parte, diante do caos e da guerra civil que reina no estado do Rio de Janeiro, é preciso, antes de mais nada, debater seriamente a política de combate às drogas, tomando decisões estratégicas com eficiência e pragmatismo.

Diversos pesquisadores de renome no Brasil e no exterior já salientaram que o uso de Cannabis sativa, conhecida vulgarmente como maconha, não causa prejuízos severos à saúde humana, tanto do ponto de vista fisiológico, quanto do ponto de vista da saúde social (coesão e patologias sociais). Entretanto, a sociedade recrimina o uso da cannabis com um juízo moral instalado, difícil de ser superado, devido ao tratamento dado pelos meios de comunicação e pela legislação vigente.

Não existe argumento que se sustente a cinco minutos de debate, que permita justificar a legalização do consumo de cigarro e de álcool e a criminalização do uso da planta Cannabis sp. Milhões morrem diariamente pelo consumo de cigarro, além de diversas doenças demente atribuídas ao seu consumo, bem como os problemas de saúde relacionados ao consumo do álcool, desagregação familiar, agressividade, acidentes de trânsito, cirrose, e a lista prossegue indefinidamente...

O potencial efeito de trampolim sugerido por alguns, que consiste na passagem de uma droga leve, a cannabis, para uma droga pesada como o crack ou mesmo a cocaína, só é possível uma vez que os usuários se deparam com a possibilidade de compra de todas estas drogas na boca. Não existe estudo que corrobore o efeito trampolim. Por outro lado, muitos estudos mostram a eficiência da Cannabis para o tratamento de usuários de crack, droga realmente demolidora do ponto de vista de saúde.

Qualquer criança de 8 anos consegue comprar a quantidade que quiser de qualquer droga, com a venda sendo des-regulamentada da maneira que está. Estrategicamente, a descriminalização da maconha e sua regulamentação e venda em postos controlados, deixaria de fornecer milhões por ano em dinheiro e armamento para a perpetuação do tráfico. Assim, o sistema de tráfico não se sustentaria com a mesma facilidade que está em nossa sociedade, apenas com a venda de crack e da cocaína.

O que se nota na sociedade, na verdade, é uma ignorância acerca do tema, um medo injustificado, uma puta mentira afinal. E resolvi contestar a ignorância e as mentiras do mundo, na tentativa de melhorar a vida dos que estão ao meu redor e consequentemente a minha.

O que seria do passado musical do mundo se não fosse a criatividade experimentada por vários artistas para produzir canções pro nosso consumo e aliviar nossos anseios subjetivos? O que seria da teoria da personalidade de Freud, se este não tivesse mergulhado na sua consciência, e na dos seus pacientes, elaborando modelos de compreensão da psique e do self, permitindo uma sobrevida para que nossa colônia funcione “normalmente”?

Creio que nosso medo primitivo está relacionado ao questionamento de nossos valores. Esses medos queimaram diversos cientistas e artistas em períodos obscuros de nossa história, atrasando em algumas centenas de anos a evolução da espécie humana na compreensão do mundo e de si mesma.

Temos medo de nossa própria consciência? Temos medo de nos depararmos com seres mesquinhos e medíocres que só tem valor enquanto um objeto consumidor e de consumo, fazendo compras em datas programadas, sendo vitrines ambulantes, parte de uma cultura homogênea e monótona? Disto eu tenho medo. É preciso combater.

Prendam todos os criminosos consumistas que degradam o meio ambiente, que buscam ter algum valor dirigindo seus possantes V8, na tentativa de conseguir, no fim das contas, status e sexo; Os mesmos que guardam as portas do céu, administram os cartéis. Prendam todos!

Sim, é preciso enfrentar nossos medos. Ou estamos satisfeitos com o rumo das coisas? Será que tudo vai dar quase certo? Não precisamos ter pressa, mas não podemos perder mais tempo, disse uma vez Saramago, ensaiando lucidez sobre todo o delírio coletivo.

Gabriel Ferreira de Azevedo Clemente

Biólogo pela USP Ribeirão, humanista e libertário.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Os danos cerebrais do uso da maconha


Por Cassia Andrade
Do UOL
Danos no cérebro são expressivos também para usuário leve de maconha, diz estudo

Você já deve ter ouvido algum defensor da maconha dizer que fumar um ou dois baseados por dia não faz mal a ninguém. Porém, um estudo realizado na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostra que mesmo usuários leves da droga podem ter danos em funções do cérebro, especialmente se tiverem começado a fumar cedo. E o pior: os prejuízos permanecem mesmo depois que a pessoa abandona o hábito.
A pesquisa avaliou 173 usuários crônicos de maconha e comparou com um grupo de 55 não usuários como controle. Dos consumidores de maconha, 49 tinham iniciado precocemente (antes dos 15 anos). A idade dos participantes variou entre 18 e 55 anos e o grupo fumava, em média, 1,8 baseado por dia.

O objetivo foi avaliar os danos gerados pela maconha na chamada "função executiva" do cérebro, aquela que permite processar e organizar novas informações que necessitam de planejamento, iniciativa, memória operacional, atenção sustentada, inibição dos impulsos, fluência verbal e pensamento abstrato. Para avaliar os efeitos da droga, foi aplicada uma série de testes cognitivos. Um deles, por exemplo, envolvia citar palavras começadas em "s" em um minuto.
Quanto mais cedo, pior
Segundo a autora da pesquisa, a neuropsicóloga Maria Alice Fontes, os prejuízos no grupo que consumia maconha foram expressivos em relação ao controle. E ficou claro que os danos são ainda maiores entre os usuários que começaram a fumar precocemente. "O processo de maturação do cérebro vai até os 18, 19 anos, por isso começar antes dos 15 é muito prejudicial", explica.
Outro fato constatado pelo estudo é que os déficits produzidos pela maconha são acumulativos e permanentes – os participantes do estudo também foram avaliados após um período de abstinência. Segundo a pesquisadora, o próprio prejuízo da droga sobre o controle do impulso faz com que os usuários acabem sofrendo recaídas ao tentar abandonar o hábito.
Fontes explica que todas as pessoas possuem um sistema endocanabinoide, ou seja, produzem uma espécie de "maconha" natural do organismo, chamada anandamida. Ao consumir a droga, esses receptores são preenchidos, o que causa uma espécie de conflito nas células. Com o tempo de uso, esse desequilíbrio torna-se permanente e o corpo deixa de produzir seu próprio canabinoide.
A pesquisa, apresentada como tese de doutorado pelo Laboratório de Neurociências Clínicas da Unifesp, deve ser publicada na revista "British Medical Journal", segundo a autora. E o próximo passo da equipe do laboratório será realizar um estudo com neuroimagem para avaliar a ação da maconha. 

fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-danos-cerebrais-do-uso-da-maconha

domingo, 10 de outubro de 2010

Eu vejo um novo começo de Era...

REPORTAGEM - Folha de São Paulo - Ilustrada - 10/10/10

Garota, eu vou pra Califórnia

Legalização da maconha avança no exterior e debate esquenta no Brasil

RESUMO
Enquanto cientistas, juristas e políticos brasileiros discutem a proibição do consumo da maconha, iniciativas pró-legalização ganham força na Europa e nos EUA, para reduzir a violência causada pelo tráfico, controlar os danos à saúde e taxar a substância para gerar receita aos governos, a exemplo do que já ocorre com o álcool e o tabaco.

FERNANDA MENA
CLAUDIO ANGELO

O ANO DE 2010 é especialmente fértil no debate sobre a maconha. No Brasil e no mundo, começam a pipocar pesquisas e iniciativas políticas para refundar a discussão em termos científicos e jurídicos mais modernos.
Um novo estudo científico foi publicado no Reino Unido e se impôs como referência tanto para os proibicionistas quanto para os ativistas pró-legalização -o "lobby da proibição" e o "lobby da maconha", como ambos se apelidaram mutuamente, vão debater o tema no auditório da Folha, em 21/10.
Três ex-presidentes do Brasil, do México e da Colômbia, países que enfrentam graves problemas com o narcotráfico, pediram mais ciência nas políticas sobre drogas ilícitas. Na ocasião, um deles, Fernando Henrique Cardoso, declarou que "a guerra às drogas falhou" e que as atuais políticas de proibição precisam de "uma revisão transparente".
Na semana passada, em Genebra, Fernando Henrique acenou com a possibilidade de internacionalizar a proposta. "De fato, estamos cogitando criar uma nova comissão para tratar da questão das drogas, agora com abrangência global", revelou àFolha. "Também estarão nela os três presidentes que participaram da primeira comissão, juntamente com outras personalidades internacionais."
Em novembro, na Califórnia, um plebiscito votará um novo estatuto legal (e fiscal) para a maconha, que poderá passar a ser tratada como o álcool e o tabaco. Ao mesmo tempo, Portugal completa dez anos de descriminalização do uso de todas as drogas, sem registrar explosão do consumo.
No Brasil, além da defesa de uma ideia custosa do ponto de vista político feita por FHC, o Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, ligado à Presidência da República, se prepara para votar a proposta da criação de uma agência nacional para pesquisar o uso medicinal da maconha. E uma guerra de artigos de cientistas e cartas de leitores na página 3 da Folha ajudou a pôr o debate em pauta.
Qual dos males é o menor: o prejuízo à saúde causado pela fumaça ou os danos decorrentes da proibição? Quando o assunto é maconha, não é fácil separar o trigo científico do joio ideológico.

QUINTAL Para evitar os danos decorrentes da proibição, o músico carioca Pedro Caetano, 29, decidiu cultivar em seu quintal, no bairro de Engenho do Mato, em Niterói, alguns pés de Cannabis sativa, erva da família das canabáceas, nativa da Ásia, de folhas compostas, finamente recortadas, serreadas, inflorescências axilares e frutos aquênicos arredondados, conforme ensina o dicionário Houaiss.
Os "danos decorrentes", no caso de Pedro, não são probabilidades ou conjecturas teóricas. Depois de ter o pai assassinado por traficantes em Vila Isabel, zona norte do Rio, em 2004, o baixista da banda de reggae Ponto de Equilíbrio viu no cultivo para consumo próprio uma forma de não se envolver com o tráfico. Ele tinha dez pés da planta. "Aquela colheita daria para o ano todo."
Em 9/7, Pedro foi algemado e levado para a delegacia. Passou 14 dias preso. Chegou a dividir cela com 70 pessoas, sem chinelo, camisa nem banho de sol, até conseguir convencer a Promotoria de que é usuário e não traficante.
Ao saber da prisão do companheiro de banda, o baterista Lucas Rehen telefonou para seu irmão Stevens, professor de neurociência na Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos principais especialistas em células-tronco do país. Este procurou outro expoente da pesquisa científica brasileira: Sidarta Ribeiro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, cofundador do Instituto de Neurociências de Natal.
Rehen, Ribeiro e outros dois diretores da SBNeC (Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento), João R.L. Menezes e Juliana Pimenta, redigiram um manifesto pela revisão do status legal da maconha no Brasil que teve trechos publicados em reportagem da Folha. O argumento central é de que "a política proibicionista é mais deletéria do que o consumo".
Pela primeira vez, pesquisadores de renome adotaram uma posição política sobre a droga, em nome de uma sociedade que representa 1.500 cientistas.

LOBBY VS. LOBBY A reação à carta dos neurocientistas não demorou. Em artigo também publicado na Folha, em 22/7 ("Maconha, o dom de iludir"), Ronaldo Laranjeira e Ana Cecilia Marques, psiquiatras do Inpad (Instituto Nacional de Políticas sobre Álcool e Drogas), publicaram um texto em tom igualmente politizado. Alertaram para o "dom de iludir" da erva e para os danos à saúde causados por seu uso recreativo, valendo-se do estudo "Cannabis Policy - Moving Beyond Stalemate" ("Política para a Cannabis - Superando o Impasse"), recém-publicado pela Oxford University Press. Apontaram também a falta de conclusões de estudos sobre o uso medicinal da maconha.
Em 30/7, os neurocientistas voltaram à carga em novo artigo naFolha ("Ciência e fraude no debate da maconha"), apontando a "fraude" dos adversários, que teriam omitido a conclusão de "Cannabis Policy". Embora reconheça os danos à saúde, o estudo é favorável ao fim da proibição, para que seu uso possa ser regulamentado e seus danos controlados, como acontece com o álcool e o tabaco.
O artigo aponta o "poder medicinal" da droga, que teria alguns elementos "comprovadamente anticarcinogênicos", e questiona o interesse de Laranjeira e Marques em defender a proibição de um "medicamento fitoterápico de baixo custo e sem patente em poder de companhias farmacêuticas".
Seguiu-se nova troca de farpas entre o "lobby da maconha" e o "lobby da proibição". O pesquisador Rafael Guimarães dos Santos, 29, entrou no debate e, na mesma página 3 da Folha, publicou em 22/9 o artigo "Falta ciência na discussão sobre a maconha", apontando "imprecisões" nos argumentos científicos de ambos os lados.
Saiu abalado: uma troca de e-mails de enquadramento de Rafael foi se alargando progressivamente, da roda inicial de neurocientistas pró-Cannabis para outros pesquisadores e jornalistas científicos, até ir parar novamente na página 3 daFolha, desta vez no Painel do Leitor (em 24 e 29/9).
Sob pressão, Santos "retratou-se" da série de erros que afirma ter cometido e concluiu com o pedido: "O uso medicinal e não medicinal da maconha e de seus derivados deve ser legalizado".

IPCC DO CÂNHAMO O revisionismo do status legal da maconha ganhou fôlego com a publicação do estudo "Cannabis Policy".
Encomendado pela diretora da Fundação Beckley, a aristocrata britânica Amanda Feilding, a uma comissão de cinco especialistas, o relatório pretende fazer com a Cannabis o que o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) fez com o clima: vasculhar a literatura científica e traçar o estado da arte do conhecimento sobre o tema.
As conclusões não são animadoras para o proibicionismo: mesmo banida no mundo inteiro por uma convenção internacional desde 1961, a maconha foi usada por 4% da população adulta mundial em 2005, o que daria 160 milhões de maconheiros.
"A maconha é amplamente disponível e amplamente usada, então, se você quer argumentar contra o atual regime de proibição, ela é o melhor exemplo", disse à Folha o criminologista australiano Peter Reuter, da Universidade de Maryland (EUA), coautor do relatório.
Reuter e colegas dizem que as políticas de proibição, draconianas ou liberais, têm "pouquíssimo impacto" na prevalência do consumo. A conclusão vai de encontro ao argumento de Laranjeira a favor do banimento -para o psiquiatra brasileiro, liberar a maconha faria o consumo explodir.
A comissão diz que a guerra contra as drogas, capitaneada pelos EUA, produz "amplas violações de direitos humanos", especialmente contra jovens e minorias étnicas. Proibidas, as drogas geram um mercado negro que dissemina "corrupção, violência e colapso institucional" em países inteiros.
O relatório defende que os países tirem a maconha da Convenção Única sobre Narcóticos, de 1961, que instaurou a proibição global, e formulem suas próprias políticas para a erva. E arremata: "Parece desproporcional o dano social criado pela proibição diante dos danos da droga em si".
Na balança em que se pesa dano social, de um lado, e dano à saúde, de outro, a dinâmica atual da ilegalidade da maconha dialoga com a experiência da proibição do álcool nos EUA, entre 1920 e 1933. O banimento do comércio de álcool em território norte-americano não cessou seu consumo nem diminuiu as taxas de doenças relacionadas a ele, como a cirrose. Além disso, a proibição consolidou uma rede de ilegalidades, violência e corrupção que chamamos hoje de crime organizado.
A maconha segue esse rastro. Se a proibição gera um mercado negro que promove seus negócios na base da corrupção e da submissão de populações vulneráveis, não se sabe quantas mortes estão associadas a doenças causadas pelo uso da substância.
Já o tabaco, comercializado legalmente no mundo inteiro, mata cerca de 5 milhões de pessoas por ano, segundo a última estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS).

NOVIDADE A publicação do estudo "Cannabis Policy" não deixa de ser uma novidade no contexto das pesquisas sobre o tema, cujos financiadores tradicionalmente as utilizam como instrumento político-ideológico.
O exemplo clássico é o das pesquisas bancadas, até os anos 1980, pelo Nida, o Instituto Nacional sobre o Abuso de Drogas, dos EUA. Braço científico do aparato antidrogas da Casa Branca, o Nida ficou célebre pelo financiamento de estudos que apontassem os malefícios da erva.
"Eles ajudaram a disseminar bobagens como a de que as propriedades farmacológicas da maconha induziriam as pessoas a usarem drogas mais prejudiciais e viciantes, como a heroína", diz Renato Malcher-Lopes, professor de neurociência da Universidade de Brasília e autor de um trabalho sobre o sistema canabinoide.
Em 1990, cientistas israelenses descobriram que o sistema nervoso fabrica sua própria "maconha": um conjunto de moléculas que ajudam na transmissão e modulação de impulsos entre os neurônios.
O receptor, ou "fechadura química" onde essas moléculas se encaixam, é um dos mais ubíquos no cérebro. "O sistema canabinoide endógeno está envolvido em cognição, emoção, percepção sensorial, coordenação de movimentos e na interface entre o sistema nervoso central e a fisiologia do resto do organismo", explica. (Leia mais em folha.com/ilustrissima.)
Os resultados do "Cannabis Policy" são menos enfáticos ao abordar os danos ao usuário. Há indicações de que a maconha cause perda cognitiva, piore o rendimento e aumente a evasão escolar entre adolescentes e o risco de câncer de pulmão, e esteja relacionada a surtos psicóticos, esquizofrenia e infarto.
Estudos sugerem também que a erva serve como "porta de entrada" para outras drogas ilícitas, mas não é possível dizer se isso é efeito do tráfico ou de características psicológicas preexistentes.
"O dano agudo mais grave parece estar relacionado a dirigir 'chapado'", disse à Folha Peter Reuter, criminologista da Universidade de Maryland (EUA) e coautor do relatório. "Mas o risco de dependência é real."

DEPENDÊNCIA Os estudos revisados pela comissão do "Cannabis Policy" sugerem que 9% dos usuários desenvolvem dependência química, número que sobe para 16% entre adolescentes. É uma taxa alta, mas modesta se comparada ao risco de dependência de outras drogas: 32% para o tabaco, 23% para a heroína, 17% para a cocaína e 15% para o álcool.
O tetraidrocanabinol (THC), o princípio ativo da droga, é bem tolerado pelo organismo: não reduz a taxa de respiração, nem tem efeitos tóxicos sobre o coração e o sistema circulatório. A dose letal em humanos vai de 15 g a 70 g. Um cigarro de maconha normalmente tem 0,5 g do composto. Até hoje, só duas mortes por overdose foram registradas em toda a literatura médica, mas não foi possível estabelecer se a culpa foi mesmo do THC.
O problema, diz Peter Reuter, é que não se sabe nada sobre os efeitos da droga no longo prazo. "Não há estudos em quantidade suficiente." É irônico, mas a própria ilegalidade da droga impede a realização dessas pesquisas.
"Tenho falado com epidemiologistas que seguem um grande número de pessoas durante muito tempo, observando uma série de aspectos. E eles dizem que não perguntam sobre maconha porque seria desencorajador e algumas pessoas não participariam mais dos estudos", afirma o criminologista. Sem esse tipo de acompanhamento, não dá para saber, por exemplo, qual é o risco de câncer para quem fuma há muito tempo.

CULTURA E MORAL Por que dependentes de álcool vão para o sistema de saúde enquanto dependentes de drogas vão para a cadeia? A explicação possível é de natureza cultural e moral.
As primeiras conferências internacionais para banir o comércio de drogas, ocorridas há cem anos e lideradas por um bispo norte-americano, passaram ao largo de evidências científicas e de saúde.
Numa época em que a cocaína era produzida pela Bayer e destacada nas drogarias, a estratégia de banir substâncias psicotrópicas do comércio global foi antes motivada por interesses religiosos, políticos e econômicos (leia mais emfolha.com/ilustrissima).
"O álcool é parte da tradição religiosa ocidental, enquanto as demais drogas têm origem em países periféricos e foram demonizadas", explica Henrique Carneiro, professor de história moderna na USP e autor de livros sobre drogas.
Reiterada ao longo de décadas, a mensagem de que usar maconha é errado, mas beber álcool não, estigmatizou uma como a "erva do diabo", outro como o "néctar dos deuses", enaltecido em anúncios que relacionam seu uso a festas e gostosas de biquíni.

MACONHABRAS Outra confusão escondida sob o fumacê é a diferença entre uso recreativo e uso medicinal. A proposta de criação de uma agência nacional para pesquisar o uso terapêutico ganhou de Ronaldo Laranjeira o apelido de "Maconhabras".
Entre as possíveis aplicações terapêuticas estão as propostas pelos psiquiatras paulistas Eliseu Labigalini Júnior e Dartiu Xavier, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
No final dos anos 1990, eles acompanharam um grupo de 50 viciados e notaram que alguns usavam maconha para baixar a ansiedade e conter a "fissura" causada pela pedra de cocaína fumada. Por estimular o apetite, a erva impediria, em tese, que o crackômano definhasse até a morte.
A substituição de drogas pesadas por outras, menos danosas e administradas sob controle, é uma tendência no tratamento de viciados em heroína, por exemplo, que recebem doses de metadona. Internacionalmente reconhecida, a técnica ganhou o nome de redução de danos.
A pesquisa de Labigalini e Xavier, porém, parou no nível de observação daquele pequeno grupo. "Para um estudo grande, teríamos de fazer uma intervenção terapêutica" -ou seja, distribuir a droga aos pacientes. "Mas isso é ilegal no Brasil."
Cientistas como Elisaldo Carlini, ex-professor de Laranjeira na Unifesp e pioneiro mundial nos estudos farmacológicos da maconha, argumenta que o cultivo poderia ser feito pelo Ministério da Saúde, cuja distribuição seria controlada, para fins médicos e científicos. Mesmo assim, arrisca uma opinião sobre o uso recreativo da erva: "A medicina teria de ser menos autoritária em relação ao uso cultural da maconha".
Malcher-Lopes defende a administração da planta, vaporizada, ao paciente, ainda que isso signifique deixá-lo "doidão". "Imagine uma senhora aposentada que faz quimioterapia e tem dores de artrite. Para ela é melhor inalar do que tomar pílulas de THC. O efeito é mais rápido e uma pílula bate no estômago e volta", afirma.
"Proclamar a aplicação médica da maconha como justificativa para legalizar o uso da cannabis é misturar duas coisas e é fugir ao ponto", alerta o médico Drauzio Varella, colunista da Folha, e afirma: "A questão é: descriminalizar ou não?".

LEI DE DROGAS Não é por falta de ousadia na lei que o Brasil ainda não encontrou uma resposta eficaz para o problema. A lei nº 11.343, de 2006, isentou os usuários da pena de privação de liberdade e, ao mesmo tempo, endureceu as condenações pelo crime de tráfico. Mas peca ao não especificar a quantidade de maconha que diferencia usuário e traficante.
"A situação no Brasil é a pior possível", avalia o cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da USP. "A legislação a respeito é imprecisa, as prisões estão cheias e a política repressiva, de custo extraordinário, não prioriza os grandes traficantes, intocados no Brasil."
Ao tornar mais confuso o que já era nebuloso, a Lei de Drogas abriu as portas para situações como a de Pedro Caetano. Desde a promulgação da lei, o número de presos por tráfico de drogas no país quase dobrou: em 2006, cerca de 45 mil pessoas estavam encarceradas por narcotráfico. No final de 2009, já eram 86 mil.
Um estudo encomendado pelo Ministério da Justiça apontou que 70% deles foram presos em flagrante, desarmados, sem indício de relação com o crime organizado e portando pequenas quantidades -no caso da maconha, 50% com menos de 100 gramas da erva. Há quem tenha sido condenado por tráfico por ter no bolso alguns baseados.
"A aplicação da lei nº 11.343 mostrou que os presos por tráfico são elementos de menor importância, mas condenados a altas penas, que não refletem a gravidade de sua conduta", conta a autora do estudo, Luciana Boiteaux, professora-adjunta de direito penal na UFRJ. Ela cita um homem que entrevistou na penitenciária de Bangu (RJ), preso com 23 g de maconha e condenado a seis anos de prisão.

DE BANDEJA A pesquisa aponta para a hipótese de que boa parte parte desses presos sejam meros usuários. "Se está na favela, é traficante. Se está nos Jardins, é usuário. E isso não pode ser", avalia Pedro Abramovay, secretário nacional de Justiça. "Ao colocarmos essas pessoas na prisão, estamos dando elas de bandeja para o crime organizado."
Para ele, duas medidas urgentes precisam ser tomadas. A primeira é em relação à aplicação de penas alternativas para o tráfico. Em 1º/9, o Superior Tribunal de Justiça declarou inconstitucional justamente a parte da Lei de Drogas que proíbe a aplicação de pena alternativa a presos por tráfico. A segunda mudança é a espera do processo em liberdade, como ocorre em crimes como homicídio. "Atualmente, não existe proporcionalidade", diz Abramovay.

DECISÃO INÉDITA EM 2008, no Tribunal de Justiça de São Paulo, o juiz José Henrique Rodrigues Torres foi mais longe: considerou inconstitucional a criminalização do porte de entorpecentes. Para ele, desde que para consumo próprio, o porte não oferece perigo à sociedade, logo, não pode ser criminalizado. A decisão era inédita.
"A criminalização de uma conduta não pode gerar mais problemas que o problema que se quer controlar", explica. "O molho ficou mais caro do que o frango!".
Para Cristiano Maronna, diretor do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, "só os ingênuos ou os de má-fé não reconhecem a necessidade de mudança na atual política de drogas".
O jurista Walter Maierovitch, primeiro secretário nacional Antidrogas do Brasil, afirma que a discussão da política de drogas no país é obscurantista.
"Não há dúvidas de que a droga cause malefícios", diz. "Mas levar um usuário para o campo criminal é punir o indivíduo duas vezes. Trata-se de uma questão de saúde pública."

REDUÇÃO DE DANOS Se, no Brasil, a discussão ainda está engatinhando, em Portugal, ela foi radical. Há quase dez anos, o uso de todas as drogas deixou de ser crime por lá. O usuário, considerado como alguém com problemas de saúde, e não como criminoso, recebe uma punição administrativa, como uma multa de trânsito.
Ao contrário das previsões tenebrosas dos opositores à medida, Portugal não se tornou um destino de narcoturismo nem viveu uma explosão de "junkies".
"Houve uma diminuição no uso de qualquer droga no grupo das pessoas mais jovens, diminuição da população prisional e recorde de procura pelos serviços de tratamento", explica João Goulão, presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência do Ministério da Saúde português.
Ao invés da lei brasileira, os portugueses precisaram a quantidade de drogas que configura o porte como uso e não tráfico: o equivalente a dez doses, seja de maconha, heroína ou anfetamina.
Quem é pego com uma dessas substâncias é encaminhado a uma "comissão de dissuasão", que classifica se o indivíduo é usuário eventual, dependente ou alguém em vias de tornar-se dependente. A sanção é aplicada de acordo com o caso. Enquanto usuários eventuais podem pagar uma multa, dependentes não recebem este tipo de pena, para evitar que cometam crimes para obter o dinheiro.
Para Goulão, a descriminalização em Portugal é decorrência direta de uma mudança de percepção: a de que o dependente de drogas não é um marginal, mas alguém que precisa de ajuda.
Apesar de ter população de apenas 10 milhões de habitantes, equivalente a pouco menos da população da cidade de São Paulo, o caso português tem sido apontado como merecedor de mais atenção internacional.
"Mas um passo como este não pode ser dado sozinho", alerta Goulão. "É preciso investimento em tratamento e prevenção, redução de danos e reinserção social. Se não se faz mais nada, a descriminalização do uso de drogas pode ser um perfeito desastre."
O "Cannabis Policy" cita como exemplo de mudança de paradigma o caso pioneiro da Holanda. A descriminalização, nos anos 1980, fez o consumo entre adolescentes aumentar num primeiro momento, antes de o governo passar a limitar a venda de maconha aos "coffee-shops" -onde, aliás, não se pode consumir álcool.
"A taxa de uso de maconha na Holanda é bastante compatível com as dos outros países europeus. A Holanda não está nem perto de ter a maior taxa de uso de maconha da Europa, entre adultos ou entre adolescentes. O que quer que você pense do sistema, ele não transformou a Holanda num país 'chapado'", afirma Peter Reuter.

DE REPENTE, CALIFÓRNIA A legalização do uso medicinal na Califórnia, decidida em plebiscito em 1996, foi o primeiro passo para a Proposição 19, que os cidadãos daquele Estado votarão no dia 2 de novembro. Se for aprovada, poderá legalizar, regulamentar e taxar a maconha para uso recreativo.
Foi a crise financeira de 2008 que garantiu apoio político para o pragmatismo da proposta: a taxação do comércio da erva pode gerar aumento de arrecadação para os cofres públicos da ordem de US$ 1,4 bilhão (R$ 2,36 bilhões). Diante do rombo nas contas do Estado, a legalização deixou de ser amoral. Para muitos, no entanto, ainda soa como disparate.
Não é o caso do ex-presidente do banco Wachovia, Derek Peterson, 36, para quem a proposta soa como música. Desde que o banco onde trabalhava faliu durante a crise de crédito, Peterson abriu outras três empresas.
Quando o telefone toca em uma delas, a EGrow, ouve-se do outro lado da linha a voz de Bob Marley, papa pop do reggae, entoando a canção "Rastaman Vibration".
A EGrow ocupa um hangar na zona industrial de Oakland, na baía de San Francisco. É uma empresa especializada na venda de equipamentos high-tech para plantadores da erva. Peterson prevê cotá-la na Bolsa e ainda quer abrir uma megafazenda de cannabis em que espera produzir 45 quilos de erva por dia e obter uma cifra de R$ 120 milhões em 2011.
"A maconha medicinal é hoje uma commodity como qualquer outra na Califórnia. E, se for aprovada, a Proposição 19 vai fazer o mesmo com a maconha recreativa", avalia. "Contrariamente ao mercado financeiro, o mercado de maconha não tem sofrido oscilações: sempre há demanda."

SCRIPT DE 1968 O debate, que não é apenas científico e jurídico, mas também cultural, ainda está longe de um consenso no país.
"Passei um mês numa clínica para dependentes por conta de problemas com álcool", diz o escritor Ruy Castro, que abordou a questão da maconha em suas crônicas na Folha. "Vi de perto o que outras drogas fazem".
Para ele, "a vida não seguiu o script de 1968" quando o assunto é o uso de psicotrópicos. "Uma coisa é intelectual leitor de Aldous Huxley ter direito ao próprio corpo. Quando isso virou criança na rua usando droga, a coisa mudou."
Castro se irrita com a onipresença do debate da maconha. "É tanta gente a favor da legalização da maconha que dá vontade de fazer dizer: então tá, morre logo todo mundo e dane-se. E aí podemos tratar de outro assunto."

Qual dos males é o menor: o prejuízo à saúde causado pela fumaça ou os danos decorrentes da proibição? Quando o assunto é maconha, não é fácil separar o trigo científico do joio ideológico

As conclusões não são animadoras para o proibicionismo: mesmo banida no mundo inteiro por uma convenção internacional desde 1961, a maconha foi usada por 4% da população adulta mundial em 2005, ou 160 milhões de pessoas

A guerra contra as drogas, capitaneada pelos EUA, produz "amplas violações de direitos humanos", especialmente contra jovens e minorias étnicas. Proibidas, as drogas geram um mercado negro que dissemina corrupção e violência

70% dos detentos por tráfico foram presos em flagrante, desarmados, sem indício de relação com o crime organizado e portando pequenas quantidades -no caso da maconha, 50% com menos de 100 gramas

A legalização do uso medicinal na Califórnia, em 1996, foi o primeiro passo para a Proposição 19, que os cidadãos votarão no dia 2 de novembro. Se aprovada, poderá legalizar e taxar a maconha para uso recreativo

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Breve análise do Cortina de Fumaça

 - www.coletivocannabisativa.blogspot.com

Rodrigo Mac Niven, diretor do documentário "Cortina de Fumaça", no Festival Internacional de Cinema do RJ
O documentário “Cortina de Fumaça”, de Rodrigo Mac Niven, lançado no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro no dia 24.09, abrindo a sessão Midnight Movies, no cinema Odeon, é de uma relevância inquestionável. Trata-se do primeiro documentário brasileiro que coloca questionamentos acerca do proibicionismo existente no que se refere à questão das drogas, atribuindo atenção especial ao Rio de Janeiro devido ao fato de que a latência dos problemas gerados pelo mercado paralelo do tráfico de drogas nesta cidade é de forte intensidade.

As informações apresentadas no decorrer da película por médicos, policiais, pesquisadores e militantes políticos, brasileiros e estrangeiros, demonstra que há uma “cortina de fumaça” que impede que a sociedade visualize o real problema existente no que se refere à política da guerra às drogas.

O mapeamento da geopolítica das drogas no mundo coloca os EUA em mais uma posição de interventor, e que utilizou a justificativa de combate aos entorpecentes para militarizar os países, e expandir seu raio de ação imperialista principalmente na América Latina. Isso se reflete nos constantes ataques deste para erradicar plantações de coca na Bolívia e Peru, que utilizam esta planta como parte da cultura milenar dos povos andinos. O mais interessante é o levantamento histórico feito pelos pesquisadores, em especial do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos, da USP, demonstrando que o uso da maconha por minorias étnicas nos EUA fora motivo de aumento de criminalizar essas populações devido à tradição preconceituosa, racista e xenófoba existente neste país, acusando-os de serem responsáveis pelo aumento da violência contra indivíduos brancos e ricos.

A abordagem feita no documentário que implica uma orientação do saber clínico demonstra a resistência que a medicina tradicional impõe no que se refere ao uso da maconha em tratamentos de pessoas com doenças como a Aids, câncer, em casos de dores crônicas, e como o proibicionismo, em sua mais radical postura, impede que se avance nas pesquisas desta natureza.Tudo isto devido ao fato de que a indústria fármaco-química iria despencar em seus lucros, uma vez que o remédio natural pode ser plantando dentro de casa em jardins. Além disso, desmistifica toda a lenda criada em torno de que a cannabis destrói neurônios, provoca perda de memória, que deixa o indivíduo usuário agressivo, dentre outras formas de se demonizar a maconha.

Todo o brilhantismo do documentário se completa com os depoimentos de indivíduos que fazem uso da maconha medicinal, dos cultivadores de maconha, das feiras de cultura cannábica que existem em países como o Canadá, e a postura de grandes intelectuais se colocando a favor de uma revisão e na conseqüente modificação radical na política de drogas vigente na maioria dos países do mundo.

Uma crítica que pode-se atribuir ao filme é a presença de uma citação do economista norte-americano, Milton Friedman, um dos teóricos da doutrina neoliberal, e que foi aplicada pelo presidente Ronald Reagan, em 1989, nos EUA, e sob a égide deste pensamento desenvolveu-se a política de guerra às drogas com suas infinitas conseqüências sociais, econômicas e políticas. A participação do Fernando Henrique Cardoso e do Fernando Gabeira também são alvos da crítica. Isto se deve ao fato de que o ex-presidente da república, durante seus 8 anos de mandato, aplicou o mesmo receituário neoliberal, ampliando a militarização no tratamento das questões que envolvem as drogas sendo possível visualizar a maios repressão aos usuários e a constatação de uma guerra falida, e o Gabeira que, negando sua militância política pela legalização da maconha, ultimamente tem se colocado contra esta mudança legislativa, talvez devido a sua candidatura ao governo do estado do Rio de Janeiro e o possível desapontamento que esta postura legalista poderia causar aos seus eleitores. Apesar de todos estes serem grandes intelectuais e se colocarem (pelo menos o FHC e o Milton Friedman) em favor de uma política pública legalista, não dá para abolir da história o que fora feito por estes e o que protagonizaram no cenário político brasileiro e mundial. Há vários outros nomes da política nacional, assim como teóricos ao redor do mundo, que poderiam ter sido entrevistados ou citados em lugar destes acima descritos.

Porém, não torna diminuto de forma alguma o conteúdo do filme. Muito ao contrário, podemos considerá-lo um marco cinematográfico brasileiro e que servirá como um instrumento com uma discussão de alto nível para esclarecimento da sociedade, na luta pela legalização das drogas, em particular a cannabis, e as políticas públicas voltadas para o atendimento das questões que envolvem substâncias psicoativas. Infelizmente, é sabido que este tipo de informação não é expandida para a maioria da população, ficando restrito a um grupo que não é maioria e que não é hegemônico. Este documentário foi realizado sem nenhum patrocínio e/ou apoio de leis de incentivo à cultura, mas  filmes assim é que são as melhores produções.

Na Confraria do cinema pode-se ler outra crítica do filme ~> http://www.confrariadecinema.com.br/filme.jsp?id=2346

COLETIVO CANNABIS ATIVA
NATAL-RN

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Myslowitz-Braunschweig-Marselha (História de um fumador de haxixe)


Walter Benjamin


Esta história não é minha. Prefiro não me pronunciar quanto a ser ou não o pintor Eduard 
Scherlinger, que vi pela primeira e pela última vez na tarde em que a contava, um grande narrador; 
pois nesta época de plagiadores há sempre um ouvinte propenso a atribuir a alguém uma história de 
que se acaba de anunciar a fiel repetição. O facto é que a ouvi certa tarde num dos poucos lugares 
clássicos que Berlim ainda tem para oferecer a contadores e ouvidores de histórias: Lutter & 
Wegener. 
Sabia bem estarmos sentados à mesa redonda da nossa pequena sociedade. A conversa, porém, 
há muito tinha morrido, apenas se mantendo, mortiça e abafada, em grupos de duas ou três pessoas 
sem que uns chamassem a atenção dos outros. No meio de uma questão que nunca cheguei a saber 
qual fosse, o meu amigo, o filósofo Ernst Bloch, deixou cair um comentário: dizia ele que toda a 
gente já esteve pelo menos uma vez na vida à beira de se tornar milionário. Houve risos. A frase foi  
tomada como um dos seus paradoxos. Todavia, seguiu-se algo de estranho. Quanto mais 
discutíamos esta afirmação, mais ela nos prendia, nos ocupava, até que, um após outro, acabámos a 
reflectir em que momento das nossas vidas havíamos estado mais perto de deitar a mão a esses 
milhões. Entre as histórias que então vieram a lume, uma das mais curiosas foi a do já desaparecido 
Scherlinger que tentarei contar com as suas próprias palavras. 
Começou assim: 
Como, por morte do meu pai, me chegou às mãos uma fortuna nada pequena, antecipei a minha 
viagem a França. Acima de tudo, sentia-me feliz por, ainda antes de fazer trinta anos, ir conhecer 
Marselha, a pátria de Monticelli, a quem a minha arte tanto devia, para não falar de tantas outras 
coisas de interesse na cidade. Depositei a herança num pequeno banco privado que durante anos 
tinha aconselhado satisfatoriamente o meu pai. O seu jovem director, pessoa com quem mantinha, 
se não uma grande amizade, pelo menos excelentes relações, comprometeu-se a dedicar particular 
atenção ao meu depósito durante a minha longa ausência, bem como a contactar-me de imediato, 
caso surgisse uma boa possibilidade de investimento. 
– Basta-te deixar-nos uma procuração concluiu. 
Olhei-o, sem compreender. 
– Podemos também executar ordens por via telegráfica, mas temos que nos prevenir contra mal-
entendidos – esclareceu. – Imagina que te enviamos um telegrama e este cai nas mãos erradas. 
Obviamos a este caso combinando um nome secreto que tu utilizarás nas tuas ordens telegráficas em vez do verdadeiro. 
Compreendi, mas fiquei por momentos perplexo. Não se muda assim de nome como quem muda 
de camisa. Nomes, são aos milhares. A ideia de que qualquer um serve entrava a escolha e torna 
ainda mais aguda a sensação – primeiro oculta, depois pouco perceptível – de ser inevitável mas 
difícil de seguir. Como um jogador de xadrês que se tivesse retraído e preferisse deixar tudo como 
está mas, chegada a sua vez, opta por avançar uma peça, eu disse: 
– Braunschweiger. 
Não conhecia ninguém com esse nome nem sequer a cidade cujos naturais designa. 
Por volta do meio-dia de um asfixiante dia de Junho, depois de quase quatro semanas de 
repouso 
 em Paris, desembarquei na Gare Saint Louis, em Marselha. Os amigos tinham-me recomendado 
o Hotel Regina, perto do porto. Tinha muito tempo para ir lá registar-me e até para ver se o 
candeeiro da mesa de cabeceira e as torneiras funcionavam. Pus-me a caminho. Tratando-se da 
minha primeira visita à cidade, era necessário seguir as minhas velhas normas de viagem: ao 
contrário da maioria dos viajantes que, mal chegam, logo se dirigem ao centro de uma cidade 
estrangeira, vou primeiro reconhecer os arredores, os subúrbios. Em breve verifiquei a validade 
deste princípio. Nunca uma primeira hora me tinha sido tão compensadora como esta passada entre 
o molhe, as docas, os armazéns, e os bairros pobres, arruinado refúgio da miséria. Os bairros de 
cintura da cidade são o seu lado incaracterístico, a arena onde ininterruptamente se travam batalhas 
decisivas entre cidade e campo. E em lado algum são mais encarniçadas essas lutas do que entre 
Marselha e a Provença rural. É a grande luta entre postes telegráficos e ágaves, entre o arame 
farpado e os espinhos das palmeiras, entre as espessas colunas de vapor pestilento e os frondosos e 
recatados bosques de plátanos, entre as longas escadas e as imponentes colinas. A comprida Rue de 
Lyon é como que um rastilho de pólvora que Marselha estendeu até ao campo para rebentar com ele 
em Saint-Lazare, Saint-Antoine, Arenc, Septèmes e deixá-lo juncado de envólucros de granada, 
com toda a espécie de marcas e nomes: Alimentation Moderne, Rue de Jamaïque, Comptoir de la 
Limite, Savon Abat-Jour, Minoterie de la Campagne, Bar du Gaz, Bar Facultatif. A cobrir tudo, a 
camada de pó que aqui é feita de salitre, cal e mica. Prosseguindo por fora dos longos cais a que só 
os grandes transatlânticos atracam, sob os raios ardentes de um sol quase a pôr-se por entre as 
ruínas dos alicerces que, à esquerda, assinalam a cidade velha e as colinas e pedreiras nuas à direita, 
chega-se ao Pont Transbordeur que fecha o antigo porto, o quadrado que desde o tempo dos 
Fenícios mantém, como uma praça forte, o mar à distância.
Prossegui, solitário, o meu caminho até aos bairros mais populosos, pois senti-me arrastado pelo 
vaivém constante dos marinheiros em dia de folga, dos trabalhadores portuários de regresso ao lar, 
donas de casa a passear, rodeadas de crianças, percorrendo cafés e lojas para irem perder-se nas transversais, pois só alguns oficiais de marinha e flaneurs como eu continuavam até à rua principal, 
a rua do comércio, da finança e dos turistas: La Cannabière. Em todas as lojas, de uma ponta à 
outra do porto, expunham-se montanhas de «souvenirs». Forças sísmicas tinham conseguido 
congregar uma amálgama de vidraria, calcário e conchas e esmalte transformados em tinteiros, 
pulverizadores, âncoras, termómetros de mercúrio e sereiazinhas. Parecia-me que uma pressão de 
milhares de atmosferas comprimia e empilhava e dobrava estas representações do mundo, a mesma 
força com que as mãos rudes da gente do mar agarram as coxas e os seios das mulheres depois de 
uma longa viagem; e parecia-me a volúpia com que o interior de veludo vermelho ou azul se 
destaca no meio das pedrarias das caixinhas de conchas, para costura ou jóias, a mesma com que os 
moços festejam o dia de receber. 
Imerso nestes pensamentos, fui deixando para trás La Cannabière; quase sem dar por isso, 
passei pelas janelas gradeadas do Cours Puget e dei comigo sob as árvores da Allée de Meilhan. E 
então o acaso – que sempre guia os meus primeiros passos numa cidade – levou-me à Passage de 
Lorette, o pequeno pátio de acesso à morgue da cidade onde alguns homens e mulheres assistem, 
sonolentos, ao que parece ser o mundo inteiro transformado numa tarde de Domingo. Apoderou-se 
de mim essa mesma tristeza que ainda hoje prezo na luz dos quadros de Monticelli. Creio que, em 
momentos destes, o forasteiro que por eles passa acede a algo normalmente reservado aos 
habitantes de uma cidade. Sendo a infância a fonte da melancolia, para se entender a tristeza que 
emana das cidades buliçosas e animadas é preciso ter crescido nelas. 
Daria – continuou Scherlinger, sorrindo – uma bonita pincelada romântica descrever agora como 
arranjei o haxixe numa duvidosa taberna do porto pela mão de um árabe, fogueiro a bordo de um 
navio ou talvez estivador no cais. Mas não posso permitir-me o artifício, pois talvez eu fosse mais 
esse árabe do que o forasteiro cujo caminho ia dar à taberna. Na realidade, levo sempre haxixe nas 
minhas viagens. 
Não creio que, chegado ao meu quarto, por volta das sete, fosse o desejo subjacente de mitigar a 
minha tristeza o que me levou a ir ter com o haxixe. Foi muito mais a intenção de me abandonar à 
mão mágica com que a cidade mansamente me agarrara pela nuca. Entreguei-me ao veneno, repito, 
não à maneira de um principiante; mas, fosse a quase permanente saudade deprimente da minha 
terra, as más companhias ou os lugares pouco recomendáveis, nunca até então me sentira bem-
vindo no ambiente dos iniciados, que conhecia perfeitamente dos seus testemunhos, desde Os  
Paraísos Artificiais de Baudelaire até Lobo das Estepes de Hesse. Estendi-me na cama, li e fumei. 
Na minha frente, para além da janela; uma dessas ruas sombrias e estreitas do bairro do porto que 
parecem golpes de faca no corpo da cidade. Obtive então a certeza absoluta de que naquela cidade 
de centenas de milhar de habitantes onde ninguém me conhecia podia entregar-me ao meu devaneio 
sem ser incomodado. Mas o efeito tardava a surgir. Já tinham passado três quartos de hora e eu começara a desconfiar da qualidade da droga. Tê-la-ia eu guardado durante demasiado tempo? De 
repente, uma pancada forte na minha porta. Nada seria mais incompreensível. Mortalmente 
assustado, não fiz o menor esforço para ir abrir, apenas indaguei o que era, sem sequer mudar de 
posição. 
– Um cavalheiro que deseja falar-lhe – disse o criado. 
– Mande entrar – respondi. 
Faltou-me presença de espírito, ou coragem, para perguntar o nome. Deixei-me ficar recostado 
contra a cabeceira da cama, com o coração a bater forte, olhos postos na porta entreaberta até que 
nela se recortou uma farda. O «cavalheiro», era um boletineiro. «Recomendamos compra 1000 
Royal Dutch Sexta-feira primeira emissão. Telegrafe resposta.» 
Vi as horas. Eram oito. Um telegrama urgente chegaria ao meu banco em Berlim no dia 
seguinte, o mais tardar. Despedi o boletineiro com uma gorjeta. Comecei a sentir-me 
alternadamente inquieto e descontente. Inquieto, por me vir cair em cima um negócio, uma 
responsabilidade, logo naquele momento; descontente, pelo tempo que demorava a sentir os efeitos. 
A melhor coisa a fazer pareceu-me ir imediatamente aos correios que sabia estarem abertos, para 
telegramas, até à meia-noite. Estava fora de dúvida aceitar a proposta que o meu homem de 
confiança me fazia com tanta certeza. No entanto, preocupou-me a possibilidade de, se esperasse 
pelo efeito do haxixe, esquecer o código convencionado. O melhor era, portanto, não perder tempo. 
Enquanto descia a escada, fui recordando a última vez que fumara haxixe – há já alguns meses – 
e como me tinha sido impossível saciar a fome terrível que mais tarde me atacara no quarto. Para o 
que desse e viesse, decidi comprar uma barra de chocolate. Avistei ao longe uma montra cheia de 
caixas de bombons, de papel de estanho a brilhar e de belas pilhas de bolos. Entrei na loja e fiquei 
admirado. Não se via ninguém. Mas mais espantado fiquei ao ver a estranha cadeira de enorme 
espaldar perante a qual tive, bem ou mal, que admitir que os marselheses tomavam chocolate do 
alto de cadeiras do trono que faziam lembrar as cadeiras articuladas para cirurgia. Só então veio a 
correr do outro lado da rua o dono do estabelecimento, de bata branca e eu só tive tempo para me 
subtrair, com sonoras gargalhadas, à sua oferta de me fazer a barba ou de me cortar o cabelo. 
Reconheci pela primeira vez que o haxixe já há muito começara a fazer o seu trabalho, facto do 
qual, se não me bastasse ter transformado pulverizadores em caixas de bombons, estojos de níquel 
em barras de chocolate, perucas em bolos, as minhas próprias gargalhadas me teriam alertado, pois 
é sabido que é com gargalhadas, ou então com um riso mais silencioso e interior, que o fumo 
começa por actuar. E então reconheci-o também na interminável suavidade do vento que do outro 
lado da rua agitava as franjas nas marquises. 
Logo a seguir, veio a premente necessidade de aproveitar o espaço e o tempo que sente o 
fumador de haxixe. Como é sabido, é absolutamente imperiosa: para quem fumou haxixe, Versailles não é lá muito grande e a eternidade dura-lhe pouco. E à profundidade destas dimensões que a vida 
interior, a durée absoluta e o espaço incomensurável adquirem, não tarda a seguir-se um sorriso 
prazenteiro, antecipando uma disposição maravilhosa que a imensa incerteza de tudo quanto existe 
torna ainda mais beatífica. 
Sentia, pois, tal ligeireza e certeza no andar que o empedrado irregular da grande praça que 
atravessava me parecia o pavimento de uma estrada pela qual eu, vigoroso caminheiro, passeava à 
noite. No fim desta praça, porém, erguia-se um feio edifício de arcadas simétricas com um relógio 
luminoso na fachada: os correios. Feio, digo eu agora; nessa altura, não pensava assim. E isto não 
apenas porque quando se fuma haxixe nada parece feio, mas sobretudo porque tive a sensação de 
que aquele escuro posto de correios, à espera, à minha espera, com todos os seus receptáculos e 
cacifos prontos para receberem e transmitirem a inequívoca ordem, poderia fazer de mim um 
homem rico. Não conseguia tirar dele os olhos, sentia que teria sido fatal passar demasiado perto do 
prédio e não reparar na sua fachada e, sobretudo, no disco luminoso do relógio. Mesmo ali à direita,  
dispunham-se no escuro as mesas e cadeiras de um bar, pequeno, mas com ar verdadeiramente 
suspeito. Embora ficasse bastante afastado dos quarteirões marginais, não se viam lá burgueses; 
quando muito, e para além do proletariado portuário, um par de outros taberneiros das redondezas. 
Ali tomei assento. Era o último naquela direcção, ainda podia lá ir sem perigo e, graças ao fumo, 
para lá me dirigi com a mesma segurança com que uma pessoa morta de cansaço consegue encher 
até cima, sem derramar uma gota, um copo de água, coisa que para uma outra com os sentidos 
alerta é bem difícil. Mal comecei a sentir-me tranquilo, veio o haxixe fazer das suas, com uma 
energia primitiva como nunca tinha sentido. Entre outras coisas, transformou-me em fisionomista. 
Eu, que tenho dificuldades em reconhecer amigos de toda a vida, em reter na memória umas 
feições, obstinei-me em fixar os rostos que me rodeavam por duas razões: não queria atrair sobre 
mim os seus olhares nem suportava a sua brutalidade. Passei a compreender porque é que para um 
pintor – não ocorreu o mesmo a Leonardo e a tantos outros? – a fealdade que resulta das rugas, dos 
olhares, dos rostos, pode parecer o verdadeiro reservoir da beleza, uma arca do tesouro, uma 
montanha mágica aberta que deixa brilhar todo o ouro do que é belo no mundo. Recordo em 
particular o rosto extremamente animal de um homem comum, no qual julguei vislumbrar num 
repente as «rugas do conformismo». Os rostos dos homens eram os que mais me fascinavam. Fui 
completamente apanhado pelo jogo de descobrir em cada rosto que assomava de novo o de alguém 
conhecido que umas vezes sabia quem era, outras me escapava. A alucinação foi-se, como as dos 
sonhos, sem retraimento ou embaraço, antes alegre e amistosa como uma criatura que tivesse 
cumprido a sua obrigação. O meu vizinho, de aparência pequeno-burguesa, mudava constantemente 
o aspecto, a expressão, o conjunto do seu rosto. O seu corte de cabelo, as armações escuras dos 
óculos, conferiam-lhe um ar ora severo, ora amistoso. Dizia para mim próprio que era impossível ele mudar com tal rapidez, mas não adiantava nada. Tinha já muitas vidas dentro de si, pois saltou 
de repente para estudante de uma pequena cidade do leste. Tinha um quarto bonito e bem decorado. 
Perguntei-me: onde terá este jovem adquirido tanta cultura? Que fará o seu pai? Loja de atoalhados 
ou armazém de cereais? De repente, fiquei a saber: – Isto é Myslowitz! Levantei os olhos. E lá 
estava, do outro lado da praça, não, mais longe, no extremo da cidade, o liceu de Myslowitz, e nos 
ponteiros do relógio – com que então tinham parado, não andavam – pouco passava das onze. A 
aula devia já ter começado. Mergulhei completamente nesta imagem, sem qualquer razão para tal. 
As pessoas que ainda há momentos – ou terá sido há duas horas? – me fascinavam, tinham 
desaparecido. «De século para século, tudo fica mais estranho», foi o que me passou pela cabeça. 
Hesitei bastante antes de provar o cassis. Tinha pedido meia garrafa e o cassis é uma bebida 
seca. No copo nadava um cubo de gelo. Não sei quanto tempo fiquei a seguir-lhe os desenhos; sei 
que quando voltei a olhar para a praça verifiquei que lhe tinha dado para se pôr a mudar, ela e tudo 
quanto tinha dentro, como se quisesse desenhar uma figura que, quando vista demoradamente, nada 
tinha a ver com ela mas antes com o que faziam os grandes retratistas do século XVII que, 
conforme o carácter do modelo, o situavam diante de uma colunata ou de uma janela e assim 
destacavam a janela. 
De repente despertei, excitado, do mais profundo alheamento. Fez-se luz dentro de mim e só via 
uma coisa: o telegrama. Tinha que ser imediatamente expedido. Para me manter desperto, pedi um 
café simples. Começou a parecer-me uma eternidade, o tempo que o criado levava a trazer o café. 
Peguei ansiosamente na chávena, cujo aroma me subia pelo nariz; de repente, parei a minha mão – 
para minha surpresa; ou por causa da minha surpresa, quem saberia? – a escassos centímetros dos 
lábios. Mal o embriagador aroma do café me chegou ao nariz, logo adivinhei a pressa instintiva do 
meu braço e lembrei-me de que esta bebida constitui para todo o fumador de haxixe o cúmulo do 
prazer, pois não há nada como ela para intensificar o efeito da droga. Por isso quis deter-me e 
detive-me. A chávena não chegava aos lábios. Mas também não regressou ao pires. Ficou suspensa 
no ar, segura pelo meu braço que começava a insensibilizar-se e a sustinha, rígido e morto, como se 
de um emblema, de uma pedra sagrada ou de uma relíquia se tratasse. Os meus olhos pousaram-se 
nas pregas das minhas calças de praia e viram nelas as rugas de um albornoz; olhando para a minha 
mão, vi-a morena, etíope, e enquanto mantinha os lábios fortemente apertados a recusar a bebida e a 
palavra, um sorriso ia subindo até eles, um sorriso altivo, africano, sardanapálico, o sorriso de um 
homem capaz de penetrar o concerto do mundo e o destino, para quem as coisas e os nomes não 
encerram qualquer segredo. Dei comigo ali sentado, moreno [braun] e taciturno [schweigend]: 
Braunschweiger. Acabava de conhecer o sésamo deste nome que devia ter em si as maiores 
riquezas. Com um sorriso de compaixão, pensei pela primeira vez nos habitantes de Braunschweig, 
a viver tristemente na sua cidadezinha do interior, totalmente ignorantes das forças mágicas contidas no seu nome. Neste ponto, abateram-se sobre mim, como um coro festivo, as badaladas da 
meia-noite de todas as torres de igreja de Marselha. 
Ficou mais escuro quando fecharam o bar. Vagueei sem rumo pelos paredões, lendo um após 
outro os nomes dos barcos ali amarrados. Invadiu-me então uma inexplicável alegria e sorri à lista 
dos nomes de mulheres de França que ia vendo: Marguerite, Louise, Renée, Yvonne, Lucille. 
Revelavam-me o amor com que eram pronunciados os nomes destes barcos, maravilhoso, belo, 
comovente. Junto ao último havia um banco de pedra. – Banco – disse para mim próprio, achando 
mal que o nome me aparecesse a dourado com fundo negro. Foi a última ideia que me cruzou a 
cabeça com nitidez naquela noite. As seguintes foram-me sugeridas pelo título dos jornais, quando 
o sol forte me despertou num banco junto ao mar:
«Sensacional alta na Royal Dutch». 
– Nunca me, tinha sentido – concluiu o narrador – tão leve, lúcido e alegre depois de ter fumado.
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